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Em 10 anos, poluição matou 28 pessoas por câncer de pulmão em Maceió

Estudo da Ufal revela 9,6 mil mortes nas capitais brasileiras em uma década
Por Adja Alvorável 28/02/2026 - 06:00
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© Arquivo/Marcelo Camargo/Agência Brasil
PM2.5 é um poluente microscópico, capaz de penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea
PM2.5 é um poluente microscópico, capaz de penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea

A poluição do ar esteve associada a 28 mortes por câncer de pulmão em Maceió entre 2014 e 2023. O dado faz parte de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e publicado na revista científica internacional Atmosphere, que analisou as 27 capitais brasileiras ao longo de uma década.

No cenário nacional, a pesquisa estima que 9.631 mortes por câncer de pulmão no período tiveram relação com a exposição prolongada ao material particulado fino (PM2.5), o que corresponde a 13,56% de todos os óbitos pela doença nas capitais brasileiras.

O PM2.5 é um poluente microscópico, capaz de penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea. Para calcular o impacto, os pesquisadores utilizaram o modelo AirQ+, ferramenta desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com base em dados oficiais de mortalidade do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DATASUS) e estimativas atmosféricas de reanálise.


O estudo ressalta que, apesar de avanços regulatórios recentes, o Brasil ainda adota metas intermediárias de qualidade do ar superiores às recomendações mais rígidas da OMS. Para os pesquisadores, reduzir emissões do transporte urbano, controlar fontes industriais e enfrentar queimadas são medidas essenciais para diminuir o impacto da poluição sobre a saúde da população.

Ao quantificar mortes associadas ao ar que se respira diariamente, a pesquisa reforça que o câncer de pulmão não está ligado apenas ao tabagismo, fatores ambientais também desempenham papel relevante e mensurável.

Em Maceió, os 28 óbitos atribuídos à poluição ao longo de dez anos representam quase 3% das mortes pela doença no período, um número que, embora menor que em outras regiões do país, acende o alerta sobre a importância da qualidade do ar na capital alagoana.

Nordeste tem índices menores, mas não está imune

Embora Maceió apresente números inferiores aos de capitais do Sudeste e do Sul, o estudo indica que a exposição existe e gera impacto mensurável.

“As taxas em Maceió e nas outras capitais do Nordeste são menores que a média nacional e refletem os menores níveis de poluição na região quando se compara às demais regiões do país”, destacou o professor Flavio Manoel Rodrigues da Silva Júnior, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS/Ufal), orientador do estudo.

Ainda assim, o levantamento mostra que 97,41% das médias anuais de PM2.5 nas capitais brasileiras ultrapassaram o limite recomendado pela OMS, fixado em 5 µg/m³. Além disso, 28,52% das medições superaram inclusive o padrão brasileiro atualmente em vigor, considerado mais permissivo.

Os maiores números absolutos de mortes atribuídas à poluição foram registrados nas capitais do Sudeste, especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro, regiões com maior densidade urbana e atividade industrial.

Tendência nacional de queda é discreta

A análise estatística identificou uma leve tendência nacional de redução das mortes atribuídas ao PM2.5 ao longo do período, estimada em cerca de 1,2% ao ano. No entanto, quando as capitais são analisadas individualmente, a maioria não apresenta variações estatisticamente significativas. É o caso de Maceió, que manteve estabilidade no período estudado.

Segundo os autores, esse comportamento é comum em estudos multicêntricos: os efeitos se tornam mais evidentes quando os dados são analisados em conjunto, ampliando o poder estatístico.

Ciência feita em Alagoas

O artigo tem como primeiro autor o estudante de Medicina Albery Batista de Almeida Neto, da Ufal, e contou ainda com a colaboração de pesquisadores do Instituto de Ciências Atmosféricas (Icat/Ufal), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal do Rio Grande (Furg).

Para o professor Flavio Rodrigues, a publicação internacional reforça o papel da universidade na formação de profissionais atentos aos determinantes ambientais da saúde e acrescenta que a pesquisa também contribui para o debate sobre políticas públicas.


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